8 de fevereiro de 2014

Projecto 06: Fazedores de Paisagens Quotidianas (FPQs)

O que são:
Os FPQs são várias ideias muito simples que reunimos num número só. Não são instrumentos com a versatilidade e possibilidades tímbricas que apresentámos noutros projectos, mas são muito interessantes quando se procura criar um certo “significado” ou criar um “ambiente”. Os sons que fazem cairiam facilmente na categoria de “efeitos sonoros”, embora para nós tudo isso faça parte da matéria com que se constrói a música. Demos-lhes nomes que dão a ideia do tipo de efeito ou ambiente que podem criar, por exemplo um chuveador produz uma paisagem sonora que nos dá a ideia de chuva, um rugidator, a de rugidos, etc.. São instrumentos particularmente interessantes para “ilustrar” histórias ou narrativas, mas têm também o potencial de construírem verdadeiras texturas abstractas muito interessantes. 


 Chilreador 
   
O Chilreador é um FPQ que faz lembrar o chilreio de pássaros. Consiste numa placa de vidro que é esfregada com esferovite humedecida. Os movimentos devem ser curtos e rápidos (uma boa forma de começar é imaginar que se está a escrever).

  
Algumas composições originais:

Chill       Pasolini



 Chuveador 
   
O Chuveador é um FPQ que faz lembrar o som da chuva. Consiste num varão roscado com anilhas. O movimento descendente das anilhas provocado pela gravidade e o facto delas caírem ao longo das estrias provoca um som contínuo muito parecido com um “pau de chuva”. O projecto que incluímos aqui tem a particularidade de usar uma taça de metal como suporte do varão roscado e uma jarra de placa na extremidade superior, mas nenhum destes é absolutamente necessário. É interessante, até, experimentar com um simples varão roscado várias superfícies de ressonância. Nesse caso convém colocar porcas de orelhas nas extremidades para não ter que apanhar as anilhas de cada vez que se põe o instrumento a soar... 



Algumas composições originais:

Chuva       Dilúvio



 Cintilador 
   
Ao contrário dos outros FPQs o Cintilador não produz um som que tenha semelhanças acústicas com um som existente na natureza. A palavra pretende transmitir a ideia de brilho, de luz que o som evoca. O Cintilador é um conjunto de caixas de música colocadas sobre uma caixa de ressonância, por exemplo uma caixa de madeira como as que se usam para acondicionar garrafas de vinho, que são tocadas de forma a que não se perceba a música que cada caixa toca. Esse efeito pode ser obtido tocando pequenas sequências em cada uma das caixas, com velocidades variáveis, tocando várias caixas ao mesmo tempo ou até invertendo o tambor que faz accionar o pente da caixa de música. A ideia é criar uma paisagem onde coexistem vários sons, várias camadas de som, sem que se perceba a “música”, ou seja a melodia ou o ritmo de cada uma das canções das caixas.



Algumas composições originais:




 Maresiador 
   
O Maresiador faz lembrar o som das ondas do mar. É simplesmente uma bacia metálica com berlindes (esferas de ferro ou aço também funcionam mas são mais difíceis de reunir) que se faz oscilar calmamente. Um outro efeito interessante (que já não faz lembrar o som do mar mas sim dum insecto ou dum circuito eléctrico) pode ser obtido com um ou dois berlindes que se fazem girar a alta velocidade ao traçar movimentos circulares rápidos com a bacia.



Algumas composições originais:




 Ribombador 
   
O Ribombador é um FQP que produz um som que faz lembrar o rimbombar dos trovões. Consiste numa mola comprida e muito flexível ligada a um parafuso colocado num orifício central duma bacia metálica. Para fazer o ribombador é necessário fazer um furo na bacia, aplicar um parafuso e enroscar a mola nele. Os movimentos caóticos da mola que surgem ao agitar o instrumento produzem um som que é amplificado pela taça de metal, tocar o ribombador consiste simplesmente em agitar a taça, mas as possibilidades expressivas, nomeadamente as “nuances” de dinâmica são muito interessantes.



Algumas composições originais:




 Rugidator 
   
O Rugidator é um FQP que produz um som que faz lembrar um rugido ou um lamento, consoante o utensílio que for usado. É basicamente uma superfície de madeira (por exemplo uma caixa de vinhos) que é friccionada com uma bola pinchona (saltitona) colocada no topo dum varão flexível ou duma lima de unhas. Consoante a dureza da bola ou se se usa uma bola inteira ou apenas um metade conseguem-se diversos tipos de rugidos e lamentos.





Algumas composições originais:




 Grasnador 
   
O Grasnador é um FQP que produz um som que faz lembrar o grasnar duma ave. É feito com um pedaço de balão (a parte por onde se enche) aplicado sobre um tubo de electricista, ficando livre cerca de 3-4 cm. Ao soprar no tubo de electricista o ar em movimento faz vibrar o balão. O modelo que apresentamos aqui inclui um ressoador (uma jarra de plástico) que amplifica algumas frequências conferindo ao som uma característica anasalada. O ressoador é opcional.







Variação


Algumas composições originais:




 Borbulhador 
   
O Borbulhador é um FQP que produz borbulhas de ar num volume de água. É simplesmente um tubo ou palhinha de refrigerante que se sopra para dentro dum recipiente com água. Consoante o fluxo de ar que se imprime, a profundidade a que se fazem libertar as bolhas de ar, o tamanho e forma do recipiente obtêm-se sons diferentes.


Algumas composições originais:



          
Protocolo 
Este é um esquema para imprimir e ter ao pé de si quando estiver a realizar este projecto.

Clique aqui para descarregar instruções de montagem.

7 de fevereiro de 2014

Projecto 05: Piano Preparado



O que é:
O Piano Preparado é um projecto que consiste em transformar um piano velho (disfuncional sob o ponto de vista do uso convencional) numa espécie de instrumento-global, capaz de produzir sons muito diversos, texturas complexas, que pode ser tocado por várias pessoas ao mesmo tempo, e que permite uma dose de exploração e descoberta excepcional. Ao longo de vários projectos artísticos temos vindo a explorar novos ângulos de aproximação ao piano (Anatomia do Piano, Pianoscópio) e fomo-nos apercebendo que há muitas formas interessantes de fazer soar um piano, algumas das quais não necessitam da preparação musical que normalmente o uso convencional exige. Paralelamente fomo-nos apercebendo que há muitos pianos abandonados porque já não funcionam no sentido tradicional mas que têm um potencial imenso de serem instrumentos de expressão musical, desde que se aborde a questão a partir dum ângulo diferente. Este projecto, Piano Preparado, é muito fácil e está basicamente dependente de se encontrar um piano que alguém não queira mais. As pistas que fornecemos aqui são apenas algumas das que testamos com sucesso.

Como se faz:
Materiais e Ferramentas:
Para fazer um Piano Preparado precisa dum piano velho sobre o qual possa intervir à vontade sem a preocupação de estar a estragar um instrumento que afinal gostaríamos que fosse afinado, recuperado, etc. Pode parecer estranho mas há de facto muitas situações em que o estado de degradação é tal que não justifica o arranjo e os proprietários agradecem a quem os livre do “fardo”. O piano que mostramos neste projecto é um desses casos.

O projecto consiste simplesmente em abrir o piano de forma poder ter acesso directo às cordas e usar um conjunto de utensílios que podem fazer as cordas soar de formas diferentes. Normalmente o piano toca-se com os dedos num teclado que acciona umas “baquetas” (martelos) que percutem as cordas, e por isso o pianista não interage directamente com a fonte que produz o som. Neste projecto a ideia é manipular directamente as cordas friccionado, percutindo, introduzindo pequenos objectos que transformam o som.


Procedimento:
Abrir o piano e retirar os tampos é muito simples, mas os vários pianos podem ter diferentes formas de fixação das peças que se devem retirar. Os pianos têm um tampo superior, um tampo frontal, um tampo sobre as teclas e um tampo inferior. Todos eles saem facilmente.

O mecanismo do piano (a parte mecânica que contém os martelos e os abafadores) também pode e deve ser retirado.

O piano está agora pronto a ser tocado de várias formas, muito diferentes da habitual. Para isso vai precisar de alguns utensílios. Esta lista não é exaustiva, são apenas algumas das hipóteses que experimentámos com bons resultados:
  
Sedielas (fio de pesca)
A ideia é friccionar as cordas com movimentos de vai e vem. A sediela deve causar algum atrito na corda e isso pode ser conseguido colocando resina (do tipo que se usa nos arcos dos instrumentos de corda) ou passando uma lixa.


Fita magnética (de cassete vídeo) 
A ideia é amarrar a fita ao topo da corda e friccionar a fita fazendo deslizar os dedos humedecidos.


Escovas (de roupa, calçado, dentes, etc.)
Podem ser usadas escovas de vários tamanhos e dureza (mais macias ou mais ásperas) para friccionar as cordas.


Plectros
Uma forma muito simples de fazer um plectro é usar uma abraçadeira de electricista apertada à volta duma rolha de cortiça ou pedaço de madeira e cortada de forma a ficar com 4-5 cm livres para pinçar as cordas individualmente ou percorrer um conjunto de cordas contíguas.



Baquetas
Podem ser usadas baquetas de todos os tipos, desde as que já existem para outros instrumentos de percussão até outras muito simples que se podem fabricar com pauzinhos chineses e cortiça por exemplo. As baquetas podem-se usar directamente sobre as cordas ou então sobre alguns objectos colocados entre as cordas que alteram o som. É o caso por exemplo de molas de madeira que alteram a sonoridade para um som que evoca o som de gongos ou de pregos de cabeça larga.


Bolas pinchonas (bolas saltitonas)
Embora sejam parecidas com baquetas a ideia aqui é friccionar as cordas, arrastando a bola ao longo duma ou de várias cordas, colocando alguma pressão. O efeito é o de uma espécie de rugido ou lamento.


Pedras
Podem ser usadas pedras lisas para friccionar as cordas.


Parafusos
Colocam-se entre as cordas e podem ser percutidos com baquetas ou postos em movimento oscilatório por acção da mão (o resultado é um som muito longo sem altura definida).


Algumas composições originais:

          
Protocolo 
Este é um esquema para imprimir e ter ao pé de si quando estiver a realizar este projecto.

Clique aqui para descarregar instruções de montagem.

6 de fevereiro de 2014

Projecto 04: Gamelão de Porcelana


O que é:
Gamelão de Porcelana é um instrumento que consiste num conjunto de peças de porcelana e que se pode tocar percutindo ou friccionando com um arco. Durante o projecto Opus Tutti construímos um "instrumento musical colectivo”/escultura sonora com centenas de peças de porcelana, faiança, grês e cristal para a performance Um Plácido Domingo, nos Jardins da Fundação Gulbenkian. Os resultados foram espantosos, o Gamelão de Porcelana e Cristal foi apresentado em vários outros contextos, e isso levou-nos a pensar em formas mais simples de poder levar a experiência a um número crescente de pessoas e a difundir os princípios que podem permitir que outras versões, mais simples, dessa ideia possam ser construídas. A ideia é basicamente reunir um conjunto de peças de porcelana ou faiança e organizá-las de forma a poderem facilmente ser tocadas. Algumas destas peças possuem frequências básicas muito marcantes e soam como as notas de alguns instrumentos musicais convencionais, outras apresentam conjuntos complexos de frequências e soam como sinos ou instrumentos electrónicos. Essas combinações permitem fazer e criar música de forma exploratória, criativa e sem necessidade de experiência musical formal. Por outro lado permite também desenvolver ideias inovadoras e sofisticadas do ponto de vista da composição musical. Este projecto ensina a fazer três versões do Gamelão de Porcelana, a super-fácil, a muito fácil e a fácil.

Como se faz:
Materiais e Ferramentas:
Para fazer um Gamelão de Porcelana precisa de peças de porcelana ou faiança e, consoante se trate da versão super-fácil, muito fácil ou fácil, de um conjunto de outros materiais e ferramentas.


A Versão Super-Fácil
   
Na Versão Super-Fácil as peças de porcelana dispõem-se numa superfície (por exemplo uma mesa), assentes sobre pedaços de esponja e o instrumento está pronto a ser tocado (com baquetas que podem ser construídas com pauzinhos chineses e rolhas de cortiça, ou batentes de portas, por exemplo). O tempo de construção é basicamente o de dispor as peças, poucos minutos. A escolha criteriosa das peças pode demorar obviamente um pouco mais, e pode ser muito facilitada se se tiver acesso a um armazém de comércio de louças, onde frequentemente há peças de segunda escolha que têm preços mutíssimo acessíveis (são peças com defeitos visuais, mas que soam como as peças perfeitas).



A Versão Muito Fácil
   
Na Versão Muito Fácil as peças estão suspensas numa estrutura. A suspensão das peças é o aspecto que pode complicar um pouco o projecto. Pode usar-se fio de algodão ou outro tipo mas a questão mais delicada é a furação das peças no centro ou a colocação de ventosas, para que o fio as possa suspender.

A furação de peças de cerâmica é um processo delicado e laborioso. As peças de faiança são bastante mais fáceis de furar do que as de porcelana, mas em qualquer dos casos devem usar-se baixas velocidades de rotação e deve-se ir arrefecendo a broca colocando água sobre o furo que se está a fazer.




Uma forma alternativa é a colocação de ventosas com silicone ou super-cola. O tempo de secagem deve ser de cerca de 24 h.

Uma vez que as peças estejam furadas ou possuam uma ventosa torna-se possível suspendê-las numa estrutura.

A estrutura pode ser mais ou menos simples de construir e nós apresentamos duas soluções possíveis, uma feita com caixas de madeira e um cabo de enxada, e uma outra, desmontável também, mas feita com um sistema de encaixes que é simples mas um pouco laborioso.



E pronto, a Versão Muito Fácil está pronta a ser usada.




A Versão Fácil
   
Na Versão Fácil as peças são fixadas com parafusos numa superfície de madeira. A peça não deve assentar directamente sobre a madeira mas sim sobre uma anilha ou batente de borracha.

A superfície de madeira que acolhe as peças pode ter muitas formas e ser montada também de várias maneiras. O modelo que se apresenta aqui é o mesmo que serviu de base a uma das versões muito-fáceis. As peças laterais da estrutura possuem  um encaixe que permite a montagem como as duas peças de encontro uma à outra. É uma solução interessante para duas pessoas.


E pronto, o Gamelão de Porcelana está pronto a ser usado. Estas fotos foram feitas nas proximidades da Vista Alegre, a nossa companheira de viagem nesta aventura.



Como se toca:
O Gamelão de Porcelana pode ser percutido com baquetas ou friccionado com arcos de violino, violoncelo, etc. 

Algumas composições originais:
   
   


Protocolo 
Este é um esquema para imprimir e ter ao pé de si quando estiver a fazer um Gamelão de Porcelana.

Clique aqui para descarregar instruções de montagem.